Dr ciro reis

Estenose Mitral

Resumo em 1 minuto: a válvula mitral fica estreita e o sangue tem dificuldade para passar do átrio esquerdo para o ventrículo esquerdo. Isso aumenta a pressão nos pulmões, causando falta de ar, cansaço e, muitas vezes, palpitações

por fibrilação atrial.


O tratamento vai de controle de sintomas (diuréticos e controle da frequência/ritmo) até abrir a válvula com balão (valvotomia percutânea) ou cirurgia (comissurotomia/reparo ou troca). A decisão é individual, feita pelo Heart Team.

1. O que é?

A estenose mitral (EM) é o estreitamento da válvula que separa o átrio do ventrículo esquerdo. Causas mais comuns:

• Doença reumática (a causa clássica no Brasil e no mundo).
• Calcificação do anel mitral em idosos.
• Mais raras: congênitas, pós-radiação, tumores/trombos que obstruem a valva.

Como se diagnostica?

Principalmente com ecocardiograma, que define gravidade e impacto no coração/pulmões. Exames como eco transesofágico (para ver melhor a válvula e descartar trombo no átrio esquerdo) e teste com exercício podem ajudar no planejamento.

2. Quais são os sinais e sintomas?

• Falta de ar (inicialmente aos esforços, depois até em repouso)
• Cansaço, queda do rendimento físico
• Palpitações; episódios de batimentos irregulares (fibrilação atrial)
• Tosse ou chiado, pior à noite; em alguns casos, tosse com sangue
• Inchaço nas pernas em fases avançadas
• Gravidez, infecções e taquicardia podem piorar rapidamente os sintomas

Atenção – emergência: falta de ar súbita/intensa, batimentos muito acelerados e irregulares, desmaio, tosse com sangue em grande quantidade ou sinais de derrame (AVC) exigem pronto atendimento imediato.

3. O que esperar? (história natural)

A EM costuma progredir lentamente. O corpo compensa por um tempo, mas a pressão nos pulmões sobe e pode ocorrer hipertensão pulmonar. É frequente surgir fibrilação atrial, que aumenta risco de trombos e AVC. Sem tratar quando indicado, crescem as chances de internações e piora da capacidade funcional.

4. Como tratar? (opções atuais)

Acompanhamento e controle clínico (casos leves/moderados e alguns graves sem critérios de intervenção):

• Diuréticos para aliviar falta de ar/inchaço.
• Controle da frequência cardíaca (beta-bloqueador ou alternativas) — evitar taquicardia ajuda muito na EM.
• Tratamento da fibrilação atrial (controle de frequência/ritmo).
• Anticoagulação quando indicada (ex.: fibrilação atrial, trombo prévio): em EM moderada/grave de causa reumática, o anticoagulante de referência é a varfarina; os “novos” anticoagulantes nem sempre são indicados nesses casos.
• Revisões periódicas com ecocardiograma para definir o momento ideal da intervenção.

Intervenções (decisão do Heart Team):

• Valvotomia mitral percutânea com balão (valvoplastia): primeira escolha quando a válvula é pouco calcificada, sem trombo no átrio esquerdo e sem insuficiência mitral mais que leve. É minimamente invasiva, abre as comissuras e alivia os sintomas rapidamente.
- Cirurgia quando a anatomia não é favorável ao balão ou houver outras contraindicações:
- Comissurotomia/reparo em casos selecionados.
- Troca valvar (biológica ou mecânica) quando o reparo não é viável.
- Biológica: não exige anticoagulante vitalício; pode desgastar com o tempo.
- Mecânica: muito durável, requer varfarina com INR controlado.

Gravidez: EM grave sintomática deve, idealmente, ser tratada antes da gestação. Se os sintomas aparecerem na gestação, a valvotomia com balão pode ser considerada em centros experientes.

5. O que esperar depois do tratamento?

A) Após valvotomia com balão

• Recuperação: geralmente rápida, com alta precoce.
• Benefício: queda imediata do gradiente, alívio dos sintomas.
• Riscos: insuficiência mitral nova/agravada (minoria), reestenose tardia.
• Seguimento: consultas e ecocardiogramas periódicos. Anticoagulação se houver fibrilação atrial ou outras indicações.

B) Após cirurgia

• Recuperação: internação um pouco maior, cuidados com esternotomia e fisioterapia.
• Prótese biológica: geralmente sem anticoagulante crônico (podem existir esquemas iniciais curtos).
• Prótese mecânica: varfarina contínua com INR-alvo.
• Acompanhamento: consultas e ecocardiogramas regulares; atenção a sinais de endocardite (febre prolongada).

C) Seguimento clínico (sem intervenção)

• Hábitos: pressão controlada, vacinação atualizada (respiratórias), atividade física orientada evitando taquicardia sustentada.
• Ritmo: tratar fibrilação atrial e avaliar anticoagulação quando indicada.

Quando procurar ajuda com urgência

• Falta de ar intensa e súbita
• Palpitações rápidas e irregulares com mal-estar
• Tosse com sangue em grande volume
• Sinais de AVC: fraqueza/sensibilidade alterada em um lado do corpo, fala enrolada, assimetria facial

Como se preparar para a consultas e exames

• Anote sintomas (início, gatilhos, piora/melhora).
• Traga a lista de medicamentos (nome/dose).
• Leve exames prévios (eco, ECG, exames de sangue).
• Se possível, vá com um acompanhante.
• Siga as orientações do serviço para exames (jejum, roupas, etc.).

Perguntas frequentes (FAQ)

1) O balão “resolve de vez”?

Muitas vezes traz grande melhora por anos. Pode haver reestreitamento com o tempo — por isso o seguimento é essencial.

2) Vou precisar de anticoagulante?
  • Fibrilação atrial/risco de trombos: sim, em geral varfarina na EM moderada/grave reumática.
  • Sem essas condições: pode não ser necessário — decisão individual.
3) Posso fazer exercícios?

Atividade leve a moderada costuma ser possível com orientação médica. Evite esforços que acelerem demais a frequência até avaliação e ajuste de tratamento.

4) Remédios “curam” a estenose?
  • Não. Eles aliviam sintomas e controlam frequência/ritmo. A melhora sustentada vem de abrir a válvula (balão) ou operar quando indicado.
5) Preciso de antibiótico antes do dentista?

Só em grupos de alto risco (p. ex., prótese valvar, história de endocardite). Higiene oral rigorosa é fundamental.

Avisos importantes

• Este conteúdo não substitui consulta médica.

• As decisões terapêuticas devem ser tomadas pelo Heart Team, considerando gravidade, anatomia da válvula, presença de fibrilação atrial e suas preferências.