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Dissecção de Aorta

Resumo em 1 minuto: a dissecção de aorta é uma emergência em que surge uma “rasgadura” na parede interna da aorta, permitindo que o sangue crie um “canal falso” dentro do vaso. Quando envolve a aorta ascendente (próxima ao coração) chama-se Tipo A e quase sempre precisa de cirurgia urgente. Quando envolve apenas a aorta descendente, é Tipo B, tratada inicialmente com controle rigoroso da pressão e da dor, podendo exigir endoprótese (TEVAR) se houver complicações. O diagnóstico é feito, em geral, por angiotomografia (TC).

1. O que é?

É uma síndrome aórtica aguda na qual ocorre um rasgo na camada interna (íntima) da aorta; o sangue entra na parede e separa suas camadas, formando um falso lúmen. Classifica-se em:

 

  • Stanford Tipo A:envolve a aorta ascendente (com ou sem extensão para outras partes).
  • Stanford Tipo B:não envolve a aorta ascendente (geralmente começa após a artéria subclávia esquerda). 
 

Condições aparentadas (também síndromes aórticas agudas) incluem hematoma intramural (IMH) e úlcera aterosclerótica penetrante (PAU), que podem evoluir como uma dissecção e são manejadas com princípios semelhantes. 

Como se diagnostica?
angiotomografia (TC) é o exame de escolha em pacientes estáveis; eco transesofágico é útil quando o doente está instável ou o acesso à TC é demorado. 

2. Quais são os sinais e sintomas?

  • Dor súbita, intensa, em “rasgo”no peitocostas e/ou abdômen, podendo migrar
  • Desmaio,queda de pressãosudorese
  • Falta de ar, às vezes dor no peito tipo infarto
  • Pulsos diferentes entre braços/pernas; déficits neurológicos (AVC), dor abdominal por isquemia intestinal, dor de pernas (isquemia)
  • Em alguns casos, sinais de insuficiência aórtica aguda (falta de ar importante, sopro novo)
 

Atenção: é uma emergência — procure pronto atendimento imediatamente se houver esses sintomas. 

3. O que esperar? (história natural)

Sem tratamento adequado e rápido, o risco de morte precoce é alto, sobretudo no Tipo A (pode ocorrer tamponamento cardíacoAVCinfartoruptura). No Tipo B, as principais ameaças são ruptura e mal perfusão de órgãos (intestino, rins, membros). O prognóstico melhora muito com diagnóstico e terapêutica precoces em centros especializados. 

4. Como tratar? (opções atuais)

A) Medidas imediatas (para todos os casos)

  • Controle da dor(analgésicos potentes).
  • “Anti-impulso” hemodinâmico:reduzir rapidamente a frequência cardíaca para ~60–80 bpm e a pressão sistólica <120 mmHg (ou a menor que mantenha perfusão), iniciando betabloqueador IV (ex.: esmolol, labetalol) e, se preciso, vasodilatador (ex.: nitroprussiato, nicardipina). Manter betabloqueador no longo prazo

B) Dissecção Tipo A (aorta ascendente)

  • Regra geral: cirurgia de urgência para substituir/reparar o segmento acometido e tratar complicações associadas (ex.: insuficiência aórtica, rotura). Técnicas incluem substituição da aorta ascendente/raiz e, em casos selecionados, estratégias híbridas como “frozen elephant trunk” conforme a anatomia. 

C) Dissecção Tipo B (aorta descendente)

  • Não complicada: tratamento clínico otimizado (anti-impulso + vigilância intensiva).
  • Complicada (qualquer malperfusãorotura/hematoma em expansãodor refratáriahipertensão intratávelexpansão rápida): preferência por reparo endovascular com endoprótese (TEVAR) quando a anatomia permite; cirurgia aberta fica para situações específicas. Em casos selecionados de alto risco anatômico/funcional, considera-se TEVAR precoce mesmo sem complicações declaradas. 

5. O que esperar depois do tratamento?

A) Acompanhamento após cirurgia ou TEVAR e nos casos tratados clinicamente

  • Pressão arterial rigorosamente controlada(alvos e esquema individualizados, tipicamente mantendo PAS <120–130 mmHg com betabloqueador como base).
  • Imagem seriada da aorta: recomenda-se vigilância em1 mês (quando possível), depois em 6 e 12 meses, e anualmente se estável (TC/RM; o cronograma pode ser ajustado conforme o caso e o segmento tratado). 
  • Estilo de vida: cessar tabagismo, controlar colesterol/diabetesevitar picos de pressão (ex.: levantar cargas máximas com apneia).
  • Avaliação genética/familiar quando houver suspeita de aortopatias hereditárias (Marfan, Loeys-Dietz, válvula bicúspide com história familiar), com eventual rastreamento de parentes de 1º grau. ]
 

Sinais de alerta após a alta: dor nova ou intensa em peito/costas/abdômen, desmaiofalta de ar importantedéficits neurológicos, febre persistente — procurar emergência.

Quando procurar ajuda com urgência

  • Dor súbita, muito forte, em “rasgo” no peito/costas/abdômen
  • Desmaiofraqueza em um lado do corpo, fala enrolada
  • Falta de ar intensa, sudorese fria, queda de pressão
  • Dor abdominal com vômitos/diarreia e piora rápida

Como se preparar para a consultas e exames (seguimento)

  • Leve a lista de medicamentos (nome/dose) e medidas domiciliares de pressão.
  • Traga exames de imagem prévios (TC/RM/eco) para comparação.
  • Informe história familiar de aneurisma/dissecção, síndromes genéticas e hábitos (tabagismo).
  • Pergunte sobre retorno ao trabalho e atividades físicas (planos graduais, evitando picos pressóricos).

Perguntas frequentes (FAQ)

1) Dissecção e aneurisma são a mesma coisa?

Não. Aneurisma é a dilatação da aorta; dissecção é um rasgo com sangue separando as camadas da parede. Podem coexistir. 

2) Todo Tipo A opera?

Na prática, sim — cirurgia urgente é o tratamento padrão para salvar a vida e prevenir ruptura/complicações.

3) Quando o Tipo B precisa de endoprótese (TEVAR)?

Quando é complicado (malperfusão, ruptura/expansão, dor/hipertensão refratárias) e em alguns casos selecionados de alto risco; o Heart Team decide caso a caso. 

4) Qual é a meta de pressão e batimentos?

Inicialmente, PAS <120 mmHg (ou o menor valor que mantenha perfusão) e FC 60–80 bpm, com betabloqueador de primeira linha.

5) Por quanto tempo devo fazer imagens de controle?

Para sempre (intervalos se alongam se tudo estiver estável). Um esquema comum é 1, 6 e 12 meses após o evento/tratamento e anual depois. 

Avisos importantes

  • Este conteúdo não substitui a consulta médica.
 
  • As decisões devem ser tomadas por equipe especializada, considerando localização, tamanho, crescimento, genética e suas preferências.